Monday, December 26, 2011

Rupturas

A superfície é estranha. A textura, áspera. Seca. Sinto o calor, mas as imperfeições do tecido já são evidentes. Tenho medo. O que é isso? Como posso consertar? É estranho e ao mesmo tempo, isso me atrai. Houve uma ruptura. Agora tenho necessidade de escrever compulsivamente. Será que algo mudou em meu cérebro? Ou serão necessárias experiências extremas para despertar ou (re)conectar algo distinto dentro de nós? Quem são essas pessoas e o que eu faço aqui? Qual a minha conexão com elas?

Partidas

A literatura é a soma de todos os nossos medos. Ela resume as nossas angústias, nossos desejos, nossa forma de viver e de pensar. Por isso, é nosso carrasco e nossa tábua de salvação – como se os seres humanos precisassem sempre de um carrasco e de uma tábua de salvação para que suas vidas, inúteis, tenham algum sentido. Nathan Zucherman, o alter-ego de Phlip Roth em O Fantasma Sai de Cena, diz que o final é sempre o mesmo. Dá no mesmo se você é um empresário de sucesso, um jogador de futebol, um mendigo ou um ladrão. No final, tudo se resume a solidão, a infinita solidão da velhice quando você encara a si mesmo. E qual o resultado de tudo isso? Como é possível definir uma vida ou como é possível saber quais os parâmetros de sucesso, ou, vamos ser francos, da felicidade? O que estou dizendo é que quando a literatura é bem feita, ela capta esse lapso, essa dúvida que paira sobre o ser humano desde que passou a fazer arte. A arte é o espelho do que somos, fomos ou imaginamos ser, um dia, quem sabe. Aos poucos me afastei daquela cena patética, daquelas pessoas que provocavam minha náusea constante. A vida é seguir em frente. Cada vez que você volta, revive o passado, mergulha novamente naquele turbilhão de pensamentos – e, logicamente, de uma dor torturante que não é necessário reviver – onde o sofrimento emerge mais rápido. Por isso parti. O voo foi rápido – infelizmente não tão rápido para fazer parar de pensar no que foi e no que viria a ser – e desembarquei, para o espanto do oficial de imigração, apenas com uma mochila – irremediavelmente a mesma que uso há anos e isso é engraçado, engraçado como nos apegamos a objetos simplórios e fazemos deles parte da definição sobre nossa existência – e uma mala de tamanho médio. Trazia poucas coisas: roupas um pouco surradas, calçados, os eternos blocos de anotação, o laptop, celular e, claro, alguns livros – aliás, escolher que livros levar, que livros deixar, quais doar, foi de uma dificuldade bem maior do que esperava. Selecionei três de meus escritores preferidos. Os demais mantive – sempre matemos essa âncora que nos impede de seguir adiante – em uma empresa que aluga boxes para pessoas como eu, que não querem se desfazer de bens materiais que sugam suas existências. Fui para meu apartamento – sim, eu já tinha um apartamento aqui, nessa cidade cinza, fria e no extremo Sul do mundo – de ônibus. Novamente, a náusea me fez dispensar o táxi e, sem dúvida, as perguntas insistentes ou a conversa forçada do taxista. Normalmente não gosto de falar com pessoas que conheço pouco. Se teria alguém para conversar aqui, nessa cidade de loucos, era com meu primo e seus amigos. Tão perdidos quanto eu – mas eu vim para cá, fiz uma escolhe, então sou diferente, ou não? Entre no apartamento, que cheirava a mofo, as 12h35. Era uma segunda-feira – não consegui me desfazer do hábito de viajar, sempre, durante a semana. Gosto de mesclar-me ao oceano de pessoas que estão vindo ou indo para algum lugar – trabalho, escola, casa de amigos, museu... - nessa confusão sinto-me em casa, independente de em qual cidade estou, se faz frio ou calor. A confusão, a barbárie humana, me deixa tranquilo. Assim, nem desfiz a mala. Tirei algumas coisas de minha mochila e fui para a rua. Tomar um café.

Sunday, December 25, 2011

Meu pai

Repassando, agora, tudo aconteceu rápido, muito rápido. Eu havia terminado de fechar a porta do banco e caminhava até os caixas eletrônicos quando meu telefone tocou - "Senhor Gabriel, bom dia, fala Flávio, do Hospital Geral. O senhor poderia comparecer aqui no hospital". Não poderia ir, estava longe, trabalhando no interior, mas já imaginava qual o assunto, assim que, após a minha explicação, meu interlocutor prosseguiu - "Bem, não gostaria de dar a notícia por telefone, mas seu pai faleceu hoje, as 9h30". Estava feito. Já era esperado. Nos últimos dois meses, o pós operatório havia apresentado sérios problemas e meu pai estava em coma há pelo menos 30 dias. Brevemente, enquanto guardava o telefone e caminhava para a porta de saída do banco recordei todo o colapso de nosso modo de vida. Lembrei de meu pai, praticamente reduzido a ossos e pele, deitado, definhando dia a dia no leito do hospital. Cabia a mim a missão mais dura, arrumar tudo, preparar o funeral, avisar os amigos e parentes e consolar minha mãe. Dividi a responsabilidade com Márcia, minha irmã - ela contaria aos parentes mais distantes e iria até o hospital fazer os arranjos para o enterro. Minutos depois estava no carro, dirigindo apressadamente para livrar-me do conglomerado urbano de Curitiba e ganhar a rodovia. Antes do meio-dia já dirigia para São Paulo - nessa ocasião não optei em ir a Curitiba de avião porque precisaria visitar vários clientes e o carro facilitaria minha vida. Entrei em São Paulo no final da tarde. Uma tarde de início de outono, já fria e com a luz peculiar do inverno que se aproximava rápido.

Esquecimento

Na adolescência era tão insuportável quanto todos os adolescentes que conheço. Irritava-me, particularmente, quando meu pai entrava no quarto ou na sala - a sala era minha propriedade privada! - sentava a meu lado e permanecia estático ou perguntava: "que filme é esse?". Sem paciência, como se o mundo - e era o meu mundo! - fosse acabar respondia rispidamente com um "não sei" e desligava a TV. Adolescentes são assim. Depois, processo contínuo, vem o arrependimento. Mas o tempo não volta e é melhor esquecer tudo.

A Rotina

Todos os dias, ao acordar, ela fazia a mesma coisa. Isso, claro, a incomodava. Levantar-se, caminhar até o banheiro, lavar o rosto, preparar o café, trocar de roupa, sair para o trabalho. A rotina. Sempre a mesma coisa, de segunda a sexta. A rotina consumindo a vida. E a vida, a despeito de tudo, tentando resistir. Tentando. 30 anos depois, a aposentadoria. Agora não precisaria mais seguir a rotina dos anos de trabalho. Mas o corpo e a mente - talvez mais a mente que o corpo - adestrados, ansiavam pela rotina. A rotina. Então, dois meses depois, suicidou-se.

Resignação

Lentamente, cirurgicamente, ele empurrou a faca para dentro do corpo nu. A repugnância se transformou em curiosidade quando o sangue começou a jorrar, primeiro lenta, depois, furiosamente. E, aos poucos, foi esvaindo a vida, degustando cada momento. Até que, dois minutos depois, estava tudo acabado. E ele, resignadamente, voltou ao anonimato.

Dia de chuva

Este pequeno diálogo foi imaginado pelo personagem ao chegar em casa, tarde da noite, após uma suave discussão com a mulher.

ELE - logo após fechar a porta da rua:
- Por que você precisa sempre ser tão desagradável?

ELA - com sinais visíveis de cansaço, mas já irritada:
- Porque convivo com você.

ELE
- O que você fez hoje?

ELA
- Nada.

ELE
- Saiu de casa?

ELA
- Sim.

ELE
- Vai trabalhar amanhã? - embora soubesse que ela estava sem trabalho no momento.

ELA
- Não. Talvez eu viaje amanhã cedo.

ELE
- Vou tomar banho.

O desejo de irritar é constante. Desde que o filho faleceu, há dois anos, a convivência tornou-se cada dia mais insuportável e qualquer relação de afeto deteriorava-se como uma fruta, já madura demais, que caiu do pé e apodrece lentamente, sendo devorada, pacientemente, por formigas famintas.
Um banho, as vezes, pode ser mágico. E depois, o sono, o sono profundo e arrebatador. O sono do esquecimento.